Há algo de muito especial nos mercados.
Não falo apenas de vender. Falo de estar presente, de olhar nos olhos, de ouvir, de trocar ideias. Nos mercados, o cacau não é só um produto. É um ponto de partida para conversas bonitas, curiosas e profundas. Conversas que nos fazem crescer.
Foi numa dessas trocas, simples e despretensiosas, que alguém se aproximou de mim para falar de cacau. Falámos de origem, de sabor e de natureza. A certa altura, essa pessoa mencionou um nome que ficou a ecoar em mim: Ernst Götsch.
Falou-me do seu trabalho, da agricultura sintrópica e da forma como ele olha para a terra não como algo a explorar, mas como algo com que se colabora. Fiquei curiosa. Fui para casa procurar saber mais. E quanto mais aprendia, mais sentia que aquelas ideias vinham dar nome a algo que eu já sentia e praticava de forma intuitiva.
O que é a agricultura sintrópica e porque é importante para o cacau
Ernst Götsch defende que a natureza não funciona em monocultura. Numa floresta, tudo coopera: árvores grandes, médias e pequenas, microrganismos, solo e água. Cada elemento tem o seu papel. Nada está ali por acaso.
Um pouco como nós em sociedade. Ninguém vive isolado. Precisamos todos uns dos outros.
Este é o princípio base da agricultura sintrópica, um modelo de agricultura regenerativa que imita o funcionamento da floresta para produzir alimentos enquanto regenera o solo, aumenta a biodiversidade e melhora os ciclos da água.
O cacau nasce na floresta
O cacau nasce na floresta. É uma planta que precisa de sombra, de humidade equilibrada e de solo vivo, rico em matéria orgânica.
Quando respeitamos estas exigências naturais, o cacaueiro cresce mais saudável e mais resistente. E o fruto expressa muito mais do que aromas: expressa território, biodiversidade, cuidado, o que muitas vezes chamamos de terroir.
É por isso que o nosso cacau é cacau de aroma fino, cultivado em sistemas agroflorestais.
Aqui, o cacau não cresce sozinho. Cresce entre árvores, protegido por espécies de grande porte, num ecossistema vivo que protege o solo, regula a água, promove biodiversidade e respeita os ciclos naturais.
Porque o cacau de aroma fino é cultivado em agrofloresta
O cacau de aroma fino desenvolve perfis sensoriais mais complexos quando cresce em sistemas diversificados e equilibrados.
A agrofloresta permite:
- solos mais férteis e vivos;
- maior resistência a pragas e doenças;
- melhor adaptação às alterações climáticas;
- e uma expressão aromática mais rica no grão.
A qualidade do cacau começa muito antes da chávena ou da tablete. Começa no sistema agrícola que o sustenta.
A diferença entre cacau convencional e cacau sustentável
Infelizmente, esta não é a realidade da maior parte do cacau consumido no mundo.
Uma grande parte do cacau mundial é produzida na África Ocidental num modelo intensivo, orientado para volume e não para regeneração. Durante décadas, este sistema esteve associado a:
- desflorestação de grandes áreas naturais;
- monoculturas a pleno sol;
- solos esgotados;
- perda de biodiversidade;
- forte pressão económica sobre os produtores.
É importante dizer isto com clareza e respeito: o problema não é o continente africano. Existem, felizmente, projetos incríveis em África que estão a regenerar solos, a reintroduzir sombra, a recuperar florestas e dignidade.
O problema é o modelo de produção industrial, que trata o cacau como uma commodity indiferenciada, desligada da terra de onde vem.
Cacau sustentável: porque nem todo o cacau é igual
Quando escolhemos um cacau sustentável, produzido em agrofloresta, estamos a escolher mais do que sabor.
Estamos a escolher:
- solos vivos em vez de solos exaustos;
- florestas em pé em vez de desflorestação;
- diversidade em vez de uniformidade;
- tempo em vez de pressa;
- relação em vez de extração.
Escolher cacau de aroma fino produzido em sistemas agroflorestais é apoiar um modelo de produção de cacau sustentável e regenerativo.
Do mercado para o mundo: educação através da proximidade
Volto aos mercados.
É ali, nessas conversas espontâneas, que percebo o poder de estar próxima de quem consome. De poder explicar, ouvir perguntas e trocar visões. De transformar um simples momento de compra numa partilha de consciência.
Talvez seja isso que mais me encanta neste caminho: perceber que cada conversa é uma semente. E que, tal como na agricultura sintrópica, quando semeamos com intenção, cuidado e respeito, o resultado é sempre mais abundante.
O cacau pode, e deve, ser parte da regeneração.
Da terra, das relações e da forma como nos alimentamos.
